Ambiente
Starbucks. Quase cheio. Um monte de gente trabalhando.
Ironicamente e curiosamente, o texto apesar de manter o tema, mudou completamente no momento que deixei o calor sufocante de Miami para trás e dei as boas-vindas ao ar gelado da cafeteria.
É que eu vinha justamente escrever sobre como o ambiente tem o poder de mudar nosso comportamento. E quando se trata de escrever, eu faço isso, geralmente, no conforto da minha casa, sentado no meu sofá, com os barulhos de casa. Hoje fiz algo que nem o futuro esperava. Inovei. Vim escrever aqui, na cadeira dura do Starbucks.
O que mudou, pergunta você. Tudo, respondo eu.
Em casa eu tenho Xandinho, Arthur, Raphaela, o gato, a cama, o sofá, o biscoito no armário. Aqui eu tenho um monte de pessoas trabalhando também. Algo no ambiente me impele a não procrastinar este texto. A não ficar fazendo alt+tab com o Whatsapp Web. A não abrir o Roblox para brincar com Xandinho.
E procrastinar escrever é algo que eu, modéstia à parte, estou me tornando especialista. “Tou cansado”, “mais tarde escrevo”, “de amanhã não passa”. Passou. Muito. Demais até.
E aquilo que era só sobre escrever e tirar alguns projetos do papel começou a vazar para o resto do dia. Fico mais ansioso, mais impaciente, mais eu-mesmo-só-que-pior. E desconto na comida.
Raphaela, sempre ela, observadora ímpar me pergunta por que estou ansioso.
— “Eu sei que estou detonando o Oreo de Xandinho. Vou me controlar.”
A piada, recurso desviador usado (muito) por mim, desta vez não funcionou. Incisivamente ela pergunta novamente o que se passa. Gaguejo.
Ela insiste.
A confissão sai:
— “Tou assim porque quero fazer as coisas e não consigo.”
Até tenho a vontade de escrever, mas chego em casa e me perco no scroll infinito de uma rede social, até me cansar dessa e ir para outra. E então ela, mais rápido que ligeiro, decreta:
— “Hoje vamos trabalhar num Starbucks!”
E aqui estamos nós, num Starbucks.
Faltou força de vontade. Faltou disciplina. Era só sentar e escrever.
Empreendedores de palco paladinos da disciplina usam muito esse discurso. Jogam a culpa em nós, meros mortais, que não conseguimos ter aquela produtividade suprema e nos enfiam um método infalível com o qual vamos ter dois dias em um só e tirar do papel todos os projetos e realizar todas as ideias, inclusive as que ainda não tiveram.
Mas será que foi isso? Será que faltou disciplina e força de vontade mesmo?
Desconfio que não, afinal estou aqui, sentado, escrevendo. Por que então eu tou escrevendo aqui e não em casa? O que mudou? Eu, de ontem para hoje me tornei mais disciplinado? Comi a fruta da força de vontade? O que mudou foi o ambiente.
Em 2011, David Neal, Wendy Wood, Mengju Wu e David Kurlander realizaram um experimento envolvendo pessoas que tinham diferentes hábitos de comer pipoca no cinema. Os pesquisadores entregaram pipoca fresca para algumas pessoas e pipoca velha, preparada havia cerca de uma semana, para outras.
No cinema, quem já tinha o hábito forte de comer pipoca consumiu praticamente a mesma quantidade, estivesse ela fresca ou murcha. Mesmo percebendo que a pipoca estava ruim, essas pessoas comeram cerca de 63% da caixa. Era como se o cérebro tivesse criado uma instrução simples.
Cinema. Pipoca. Comer.
Quando o experimento foi realizado numa sala de reunião, com um grupo diferente de pessoas, mas com o mesmo hábito forte de pipoca de cinema, o resultado mudou. Longe do ambiente associado ao hábito, elas passaram a rejeitar mais a pipoca velha.
Foi exatamente o que aconteceu comigo. Meu cérebro juntou casa, sofá, tela e cansaço e criou sua própria diretiva: procrastine. No Starbucks, a associação não existe.
Ao meu redor, todo mundo parece estar trabalhando. Tem gente em reunião, gente com planilhas abertas, gente escrevendo, gente olhando fixamente para uma tela e fingindo muito bem que está fazendo algo importante. Nesse cenário, trabalhar parece ser o comportamento normal. Se eu abrisse o Roblox agora, talvez me sentisse ligeiramente deslocado. Não há nenhuma placa proibindo um homem de 38 anos de construir uma casa digital ao lado do filho, mas o ambiente parece dizer silenciosamente: não foi isso que viemos fazer aqui.
E, se isso acontece com a escrita, imagina o que não acontece com o dinheiro.
Talvez amanhã eu vá para casa e procrastine novamente. O sofá continuará confortável. Xandinho continuará me chamando para jogar. O biscoito continuará no armário. O gato continuará decidindo que o melhor lugar para se deitar é exatamente em cima do computador. E o WhatsApp continuará perigosamente próximo do Alt+Tab.
E, se eu procrastinar outro texto amanhã, isso não me tornará fraco. Apenas me dará uma informação importante: minha casa, do jeito que está organizada hoje, é ótima para muitas coisas. Escrever talvez não seja uma delas.
O que vale para a escrita, vale para o dinheiro. Antes de culpar sua disciplina, vale a pena olhar ao redor e ver o que está perto, o que é fácil, o que aparece primeiro na tela, quem está do seu lado. Isso já vai dizer muito sobre qual comportamento esse ambiente espera de você.
Talvez não esteja faltando conhecimento. Talvez não esteja faltando força de vontade. Talvez você não precise mudar quem é.
Precise apenas mudar de cadeira.


Às vezes é mais simples do que a gente pensa...